Obras Plásticas de Carlos Botelho Atelier Carlos Botelho

Obras Plásticas de Carlos Botelho

  • 06-09-2020

Quando Carlos Botelho retoma a pintura em 1929, pouco depois da grande revelação que constituiu a sua primeira viagem a Paris, não é na produção gráfica anterior ou no desenho de humor que procura os pontos de partida.

O regresso faz-se sobretudo através de categorias solidamente estabelecidas que havia aflorado na juventude: retrato e paisagem.

Nesse período "fulgurante" e de "densíssima produção" que foram para Botelho os anos de 1930, vê-lo-emos utilizar um idioma pictórico expressionista que se distingue claramente do grafismo dos Ecos, empenhando-se fundamentalmente em três vias temáticas distintas.

Em primeiro lugar a paisagem urbana e, desde logo, a cidade onde nasceu e viveu.


Lisboa destaca-se rapidamente como "iconografia predominante, corpo mesmo do aprofundamento dos recursos do pintor e das suas sucessivas poéticas".

Não é, no entanto, a via quase única que encontraremos na sua obra posterior: "a paisagem enuncia-se como possibilidade na carreira recém-iniciada, mas não constitui ainda a matriz imperativa do futuro".

Botelho irá pintar também outras cidades: Paris, Florença, Amesterdão, Nova Orleães e, sobretudo, Nova Iorque.

"Em termos de arte portuguesa, no final dos anos de 1930, estas pinturas situam-se na vanguarda de tudo o que então se fazia" .

Paralelamente às paisagens urbanas e "pretendendo libertar-se da estrita apreciação que o consagrara como humorista", Botelho assume as suas opções com empenho social, realizando pinturas que o aproximam temática e estilisticamente da "pintura expressionista de tradição nórdica, enunciando um sentido de pesquisa conotável com o período holandês de Van Gogh" .

Os seus saltimbancos, os seus cegos ou pescadores, são figuras matéricas e densas, que nos mostram uma outra faceta da sua obra.

A terceira via que o ocupa ao longo da década inicial é o retrato, que irá culminar nos retratos de Beatriz, dos pais e dos filhos.

E se o retrato do pai do artista (Músico Carlos Botelho – ou Meu Pai), de 1937, é já "um momento axial da obra do pintor", os retratos dos filhos traduzem a autonomização da sua abordagem: "Nenhuma cedência ao gosto convencional nestes dois retratos, nenhum sentimentalismo pelos modelos, antes uma brusquidão de gesto e de atitude, como se a íntima convivência com eles em nada perturbasse o desejo de pintura" .

A partir dos anos de 1930 a Lisboa de Botelho torna-se num universo intensamente pessoal, capaz de revelar algo de profundo, oferecendo-nos "a visão de uma cidade arquetípica cuja beleza é a forma mediadora da verdade de um povo ou da sua antropologia específica.

Com uma grande simplicidade de processos e de efeitos, [Botelho] criou um universo plástico que é como o espelho simbólico e imaginoso de uma das facetas mais significativas do espírito português".

Em pinturas como Ramalhete de Lisboa, 1935, o pintor regista a cidade, "mas, mais profundamente, inventa-a, deslocando os acidentes e os sítios, submetendo-os a uma exigência plástica.


No entanto, essa cidade «pintada» é tão real, ou mais real , do que a cidade existente, reconhecemo-la profundamente" . Subtilmente, a sua pintura vai mudar.

O abrandamento da intensidade expressionista abre-lhe as vias para uma outra dimensão poética e para a "descoberta da platitude da tela, onde formas e cores se inscrevem segundo uma opção de frontalidade" .

Na década de 50 essa opção radicaliza-se em trabalhos diferentes onde se aproxima mais do que nunca da abstração.

Pinturas como Velho Casario, 1958, partem de princípios modernistas, como a autonomia da linha ou a recusa da perspetiva tradicional, assumindo abertamente a frontalidade da composição e um acentuado distanciamento relativamente à representação mimética do real.


Os princípios formais que investiga nessas obras irão surgir, pouco depois e sob outras vestes, na estruturação formal das paisagens urbanas que o ocupam até ao fim:

"O último choque produtivo obteve-o com a afirmação do abstracionismo nos anos 50, via Escola de Paris e Vieira da Silva, e este foi decisivo para os ciclos da longa produção final: não cortou com o corpo metafórico de Lisboa mas disciplinou-o, em rimas e espacialidades cromáticas em que a luz é o referente determinante" .