Banda Desenhada de Carlos Botelho Atelier Carlos Botelho

Banda Desenhada de Carlos Botelho

  • 06-09-2020

Banda desenhada / Desenho de humor

Entre 1926 e 1929 Carlos Botelho faz com regularidade banda desenhada para o semanário infantil ABC-zinho.

Foi ele "O grande autor de BD do ABC-zinho, qualitativa e quantitativamente, [...] sendo o autor quase integral da primeira e da última página da cada número, a cores, produzindo aí a maior parte das suas mais de 400 pranchas que fez para a revista"; esta incursão "não foi uma passagem episódica ou ligeira, mas uma componente essencial da sua carreira, da sua formação nos anos 20, fazendo parte integrante da sua obra" .

Em 1928 inicia colaboração semanal no Sempre Fixe, que manteve durante mais de 22 anos e que lhe serviu de palco para a crítica mordaz a uma vasta gama de temas, das trivialidades do dia-a-dia lisboeta a alguns dos acontecimentos mais relevantes da vida internacional.

A 8 de Dezembro de 1950, data em que encerrou esse monumental ciclo de trabalho, os seus Ecos da Semana perfaziam um total de cerca de 1200 páginas, "num discurso continuado sem intervalo ou férias" .
"Ecos da Semana são um duplo, e triplo, diário – do autor, entre os seus 29 e 51 anos de idade, e de um país, ou de um mundo"; mas são também "um diário do não dito" .

Num país asfixiado pela censura, a política nacional seria excluída de comentário; eram essas as regras do jogo. Isso não o impediu, por exemplo, de confrontar a escalada para a 2ª Guerra Mundial através de "notáveis e demolidores" desenhos que satirizam Mussolini e Hitler.

Mas a importância dos Ecos da Semana não se restringe à sua componente jornalística: "Em primeiro lugar porque esta é construída plasticamente, ou seja, a eficácia da mensagem depende tanto – na verdade muitas vezes mais –, da pertinência do texto como do acerto de um desenho inesgotável, fluido, totalizador de centenas de páginas inteiras, onde o olhar ora mergulha na decifração dos pormenores, ora se espraia em visão inteira, ritmada por dentro de cortes, manchas de aguada, descentramentos, inesperadas acentuações.

Os Ecos configuram-se como um «Botelho outro», paralelo ao «pintor de Lisboa e outras cidades», mas sem se confundir com ele" .

Para entender a obra de Botelho é necessário compreender o modo como as duas vertentes principais da sua obra ao longo das décadas de 1930 e 1940 – o desenho de humor praticado no Ecos da Semana e a sua pintura –, existem em territórios separados, apenas com raras sobreposições.